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O primeiro dia: Uma página em branco!

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Por Joana Belarmino

Quase noite em São Paulo, o seu coração parou de bater. Falência múltipla
dos órgãos, escreveu-se no laudo médico. Na cidade toda, no país, na América
Latina, milhares de corações experimentaram o repicar ritmado da perda,
mesclado da admiração, do carinho, do reconhecimento, da alegria, do
otimismo, da teimosia ousada e produtiva, marcas que ela foi semeando ao
longo da sua trajetória, dedicada toda à causa da cegueira.
Nascida em 1919, a cegueira alcançou-a aos dezessete anos. A jovem Dorina,
de constituição frágil, engoliu o amargo da tragédia e reinventou um lugar
onde pudesse crescer e fazer crescer a coletividade à qual agora pertencia.
Algumas décadas antes, Pedro II havia vatiscinado: “A cegueira já não é uma
desgraça”. Ela sabia entretanto, quão difícil a deficiência podia ser, para
milhares de brasileiros espalhados país a fora.
Viajou. Aprendeu braille. Conheceu organizações emergentes em Inglaterra,
Estados Unidos, dinamarca…
Negociou, mobilizou,e, em 1946, criava a Fundação para o Livro do Cego no
Brasil,hoje, Fundação Dorina Nowill para Cegos.
Noventa e um anos, jornadas e jornadas em defesa de educação, saúde,
trabalho, cultura. Milhões e milhões de páginas impressas, o legado de dona
Dorina à coletividade cega é hoje inestimável.
Vinte e nove de agosto. O tempo, implacável, segue sua jornada, rumo a outra
manhã. Outra manhã em que a fundação de dona dorina abrirá seus portões para
a receber, em despedidas, em preces, em homenagens.
Outra manhã, e, no livro da vida, a primeira página em branco, o primeiro
dia para se recomeçar, para se reler, para se reinventar, página a página, a
grandiosa lição que ela nos legou.

Último Adeus

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Por Antonio José Ferreira

Tomado de profundo pesar e emoção, mais uma vez cheguei na Fundação.
me pus em sua presença. Desta vez não foi para ouvir suas palavras, aprender com Ela como
em diversas oportunidades fizemos.
Foi apenas para reverenciá-la e recordar seu inigualável exemplo de vida e
luta em prol de seu povo.
O silêncio chorava sua falta. Pessoas em sua volta sussurravam suas
fantásticas histórias e feitos.
Homenagens dos seus familiares, seus amigos, alunos, de todos os poderes, dos diversos setores da sociedade.
Em fim, todos lhe queriam dizer obrigado. Apenas obrigado, pois naquele
momento era o que se poderia dizer.
Saí e fiquei agora na frente do majestoso imóvel da Rua Dr. Diogo de
Faria, 558. Endereço para onde incontáveis vezes escrevi solicitando
tantos livros. Livros que abriram-me as portas do saber, que tanto me
ensinaram. Um local de endereço tão familiar e agora a compartilhar
comigo dor tão profunda.
Ali perdido em pensamentos, fui convidado a seguir ao seu último
endereço. Rua da Consolação S.N.
Por um estreito caminho perfumado por centenas de coroas florais, enviadas
de locais do Brasil e do Mundo, segui o cortejo.
As palavras eram poucas. As lágrimas eram muitas. Nada a mais dizer, agora
só recordar seus conselhos e seguir seu exemplo.
Em meio a tanta emoção sinto um toque no ombro; um funcionário do
cemitério queria ouvir um pouco da história daquela celebridade que
estava a emocionar tantas pessoas.
Chamei-o ao lado e ali mesmo junto a sua tumba em rápidas palavras
falei-lhe um pouco da vida e luta de nossa incansável guerreira.
Após ouvir atentamente, aquele senhor declarou:
“temos aqui nesse cemitério túmulos de várias personalidades, Mário de
Andrade, Tarsila do Amaral, a Marquesa de Santos, dentre muitas outras pessoas
importantes para a construção da história de nosso país. Sinceramente creio
que nem uma dessas conseguiu transformar tantas vidas com seu legado
como esta fantástica mulher.
Ainda prosseguiu: “Quando recebermos visitas de turistas, vou fazer
questão de em primeiro lugar , apresentar o local em que descansa a
Dona Dorina. Contarei a sua história que permanecerá ainda a transformar
vidas por muito tempo.”
Aquelas palavras ali na consolação, foram como de um anjo enviado por Deus
a me consolar. Aprendi que as pessoas morrem, porém suas obras e
ensinos ficam eternamente vivos na história.
Silenciosamente retirei-me, dei-lhe o Último Adeus, agradecendo ao bondoso Pai, por nos terconcedido a dádiva de desfrutar do legado e companhia da nossa eterna,
professora Dorina de Gouvêa Nowill.
Que descanse em paz no seio da Glória Celeste.